Oropa, França e João

“Samba para o João” é uma das poucas canções – talvez a única – sobre as quais o Chico se debruçou para botar letra desde o álbum “Chico”, de 2011. Ela ficou pronta em 2013, após muita pressão do parceiro na música, o grande Wilson Das Neves, baterista que ao longo dos seus 80 anos acompanhou gente como Elza Soares, Tom Jobim, Elis Regina e Elizete Cardoso.

O Chico conta que, durante a última turnê que fizeram juntos, o Das Neves só falava de duas coisas: o bisneto recém-nascido e a melodia que tinha dado há 2 anos para o “chefe” colocar letra. Assim nasceu a homenagem ao pequeno João, que participa desse vídeo em que o baterista canta o samba:

“Samba para o João” é a segunda parceria Chico e Das Neves – a primeira, “Grande Hotel”, é de 1997 (no vídeo abaixo, apresentada pelos dois, com direito a sambadinha e bate-bola no final).

As duas canções se encontram em pelo menos dois momentos. O “Grande Hotel” onde se dá o reencontro dos amantes de outrora também é para onde o músico carrega seu instrumento no “Samba para o João”:

Ao meu pandeiro fiel/
Dou trato, tenho afeição/
Carrego para o Grande Hotel/
Dou colo no avião

Além disso, tanto uma quanto a outra possuem versos que terminam com palavras em francês: “vejo-te andar de tailleur” e “ou levar um souvenir” (Grande Hotel), e “mas bata no couro sem magoar: doucement” (Samba para o João).

Agora, o que me intrigou desde o início na letra foi o seguinte trecho: “Fui do Oiapoque ao Chuí/Europa, França e Japão”. Eu pensava comigo: “por que diabos o Chico botou num mesmo verso Europa e França?”. Pois bem, o Chico não botou num mesmo verso Europa e França, como dá para ver nesse manuscrito:

letra_editada
A partir daí fui procurar saber se “Oropa, França e Japão” é uma expressão conhecida. Não encontrei nada a respeito. Mas descobri uma outra, bastante semelhante, que tem história: “Oropa, França e Bahia”. Ela aparece no livro “Macunaíma” (1928) do Mário de Andrade e no poema “Oropa, França e Bahia” (1951) do pernambucano Ascenso Ferreira. Me parece pouco provável que o verso do Chico tenha como origem uma dessas fontes. Meu palpite é que nasceu de alguma história engraçada envolvendo ele e o Das Neves. Mas a letra da música e a poesia conversam entre si. Porque, mais do que uma homenagem, “Samba para o João” retrata o momento em que o dom do samba é passado para uma nova geração, desde que ela peça e mereça tal legado. Da mesma forma, no poema, Manuel Bandeira transmite ao conterrâneo Ascenso parte de sua herança: as “eternas naus do Sonho” que navegam de Oropa, França e Bahia a caminho de Pasárgada:

E as naus de Manuel Furtado,

herança da sua tia?

– continuam mar em fora,
navegando noite e dia…Caminham para ‘Pasárgada’,
para o reino da Poesia!

Herdou-as Manuel Bandeira,
que ante a minha choradeira,
me deu a menor que havia!

– As eternas naus do Sonho,
de “Oropa, França e Bahia”…

O poema completo pode ser ouvido aqui na interpretação do Alceu Valença:

E já que chegamos até aqui, vamos adiante: o que o Japão tá fazendo ali no verso da música? Talvez esteja ali porque rima com João. Talvez porque, dentre os muitos lugares em que o baterista já esteve, tenha sido o mais marcante. Ou talvez porque, conforme disse numa entrevista, o país sirva como um lugar etéreo quando se trata de relembrar as pessoas queridas que já partiram: “Eles continuam comigo. De vez em quando, fecho os olhos e vejo as pessoas. É como a Elizeth dizia: ‘foi viajar para o Japão e não sabe quando volta'”. Talvez para o Das Neves o Japão seja uma eterna nau do Sonho.


http://oglobo.globo.com/cultura/musica/baterista-wilson-das-neves-completa-80-anos-reverenciado-pela-mpb-18619208

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrissima/il2507201005.htm

http://www.portalentretextos.com.br/colunas/canta-ares-braulio-tavares/drumond-europa-franca-e-bahia,176,4678.html

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