Uma esquecida Leny

Antes da bossa nova existe uma época da música brasileira que conheço ainda muito pouco. Na época que faz fronteira com esse movimento dos anos 60, dominavam as belas vozes, como Sílvio Caldas, Orlando Silva e Francisco Alves. Era a famosa época do rádio que as mães e pais de muitos devem recordar com saudade. Muitas das músicas aliás guardam aquele registro meio chiado das gravações da época.

Uma das mais conhecidas dessa época é “Chão de Estrelas”, de Sílvio Caldas e Orestes Barbosa (esse último, aliás, é o “Orestes” citado em “Paratodos”, entre Cartola e Caetano e tem um programa da ótima Rádio Batuta dedicado a ele). Consta que Manuel Bandeira, em seu artigo no Jornal do Brasil de 18/01/1956, escrevera: “Se se fizesse aqui um concurso, como fizeram na França, para apurar qual o verso mais bonito da nossa língua, talvez eu votasse naquele de Orestes em que ele diz: ‘Tu pisavas nos astros distraída'”.

A música pode ser mais familiar porque foi regravada magistralmente pelos Mutantes no clássico “A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado”, em uma versão meio deboche-divertido-altamente-criativo.

Uma voz feminina incrível e que acabou mais esquecida que todos esses cantores é a de Leny Eversong, natural de Santos, São Paulo. Ela era daquelas cantoras que traduzem bem o período de ouro do rádio. Tinha uma voz grave que transitava entre o lírico e o popular, digna do mais clássico jazz e blues americano, e tão forte que faz pensar que seria capaz de quebrar um copo. Deem só uma olhada nisso e digam se não é uma injustiça que ninguém mais a conheça.

Leny ficou bastante conhecida por essa habilidade de cantar em várias línguas, sem saber de fato nenhuma delas. Tinha um ouvido, capacidade de memorização e reprodução incríveis que lhe permitiam ótima pronúncia. Espanhol, francês e inglês, anotava colas nas costas das mãos e, a pretexto de movimentos de performance durante as apresentações, lia a pronúncia escrita de forma aportuguesada (“Sãmertaim”). A versatilidade permitiu que viajasse por todas as Américas e pela Europa cantando em cassinos e boates, feito que poucos brasileiros contemporâneos alcançaram.

Em 6 de janeiro de 1957 ela se apresentou no Ed Sullivan Show, o auge para qualquer músico na TV dos Estados Unidos. Foi lá onde se apresentaram os Beatles no início da carreira (e para onde se preocuparam em enviar um clipe de Hello Goodbye quando já não mais faziam shows) e o pequeno Michael Jackson de chapéu roxo. No mesmo dia em que ela cantou lá, cantou também Elvis.

leny eversong elvis
Leny em 1957, com Elvis e Ed Sullivan.

Já naquele período ela foi questionada sobre por que não cantava músicas brasileiros para os gringos. “Sabem por quê? Simplesmente porque os músicos americanos desconhecem o verdadeiro ritmo do samba. Quando se fala em samba, eles tocam rumba e mambo. Dessa maneira, seria ridículo para uma cantora brasileira cantar um samba em ritmo de rumba. Por isso, procurei valorizar-me primeiro — cantando músicas do cancioneiro americano. Depois, quando eu alcançar uma situação mais segura nos ‘States’, terei mais oportunidade de mostrar o verdadeiro ritmo brasileiro sem mistificações e poderei fazer alguma coisa em benefício da nossa música popular.” Parece-me uma resposta mais que satisfatória.

leny eversong revista da semana
image-674

A mesma matéria em que está a fala, na “Revista da Semana”, descreve como Leny foi recebida calorosamente no Galeão ao voltar dos Estados Unidos. Triste verificar como sua carreira foi caminhando para um final no esquecimento. Depois que seu marido um dia saiu e nunca mais voltou, ela encerrou a carreira. Foi consolada por amigos como Agnaldo Rayol, mas nunca mais retornou à ativa. O trauma marcou a deterioração de sua saúde até sua morte no ostracismo em 1984, aos 64 anos, por complicações decorrentes de diabetes e hipertensão. Corre a história de que ela teve as duas pernas amputadas, mas ao que parece a história pode não ser verdadeira. Neste post, um comentarista identifica-se como filho dela e diz que na verdade foi feita a amputação de um dedo mindinho do pé, e não das duas pernas.

leny eversong comentário filho

Segundo este post de Ney Inácio, diretor do documentário “Leny, A Fabulosa”, o marido teria sido morto pelos militares durante a ditadura.

O tipo de voz de Leny certamente foi perdendo espaço conforme a bossa nova dominava o cenário da música brasileira, mas é interessante que eu tenha conhecido essa cantora por duas músicas de um compositor que fez parte desse movimento e é considerado por muitos o mais próximo do que seria um sucessor de Tom Jobim, Edu Lobo.

As músicas são “Aleluia” e “Arrastão”, ambas de um dos maiores álbuns da MPB: “A Música de Edu lobo por Edu Lobo”, de 1965.

“Aleluia” é do Edu Lobo com Ruy Guerra e tem uma bela versão com Nara Leão e Tamba Trio. O canto lamento mais ou menos no meio da música é o que considero um dos trechos mais belos já feitos na nossa música.

“Arrastão” é do Edu Lobo com Vinicius de Moraes, vencedora do I Festival da Música Popular Brasileira da TV Excelsior, em 1965, com interpretação da Elis Regina.

As versões da Leny me impressionaram enormemente quando ouvi pela primeira vez, tanto Arrastão como Aleluia. Pelo visto, elas não existem no YouTube nem no Spotify. Agora aqui deve ser um dos poucos lugares que abriga essas canções.

As músicas estão em um álbum chamado “Bossa 12 Vezes”, que tem canções com outros artistas e ainda mais uma com a Leny: “Ganga Zuma”, de Carlos Cruz e Almeida Rego. Essa encontrei no YouTube, também vale muito a pena conhecer. Assim como as duas anteriores, tem arranjo impressionante.


Relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *