O sofrimento cearense pelo fogo e pela água

Em um mapa de clima do Ceará, predominam as cores abrasadoras. Mais de 90% do território se encontra no semi-árido, o clima que se estampou em nossas mentes pelas gravuras de cactos e chão rachado dos livros didáticos, ou pela jornada aos grunhidos de Fabiano e sua família em Vidas Secas.

A história do estado é marcada pelas secas desde a época de colonização. Há relatos de períodos de estiagem intensos desde o século XVII. Aquela que é considerada a mais grave de todas, que durou de 1877 a 1879, deixou registros medonhos, como casos de canibalismo e um triste 10/12/1878, o Dia dos Mil Mortos, em referência ao número de corpos que chegaram em um único dia ao cemitério do Lazareto da Lagoa Funda, vitimados pela varíola.

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Foto: Multidão atingida pela seca aguarda trem de Iguatu para Fortaleza. Gentilmente cedida pelo Fortaleza em Fotos | fortalezaemfotos.com.br

A seca e seus desdobramentos é talvez o tema mais recorrente na obra nordestina. Na música, é possível que concorra com o São João, mas certamente é no flagelo da falta de chuvas que encontra seu maior poder dramático. Mas é interessante notar que, entre tantas canções, há um grande clássico, muitas vezes elencado entre as músicas que compõem a memória da seca, mas que na verdade surgiu do problema oposto: uma enchente.

Assim como a seca, também os alagamentos e enchentes não são incomuns no Ceará. Em meados da década de 60, uma emissora de TV iniciou campanha para arrecadar dinheiro e mantimentos em nome dos atingidos pelas águas. No camarim, aguardando para se apresentar, estava o humorista e compositor Gordurinha, um daqueles que ganhou apelido pelo oposto, já que o que chamava a atenção no baiano Waldeck Artur de Macedo era sua magreza.

Uma das músicas mais famosas de Gordurinha ganhou conhecimento pela gravação do conterrâneo Gilberto Gil.

Aqui, Gordurinha aparece interpretando sua música “Baiano Burro Nasce Morto”. Como curiosidade, o ator que inicia o vídeo fazendo um discurso é Mário Tupinambá, que ficou muito conhecido por interpretar Bertoldo Brecha na Escolinha do Professor Raimundo.

Junto de Gordurinha, na ocasião do programa beneficente, estava seu parceiro, o compositor Nelinho, e ali nos bastidores do programa fizeram “Súplica Cearense”, apresentando-a em seguida.

Ao que parece, o primeiro registro de “Súplica Cearense” em vinil é na voz de Ari Lobo, em um arranjo mais levado para o samba e acompanhado de um improvável órgão.

A versão do próprio Gordurinha já puxa mais para o baião, particularmente o ritmo que, para mim, reforça o lamento doído e exibe toda a força da música. Ali, vê-se que o sofrimento pelo fogo ou pela água são material para a arte do nordeste.

É marcante a posição em que o narrador se coloca ao longo de toda a música. Ele é merecedor de seu martírio. Mesmo castigado, pede perdão do início ao fim. Ele deve ter importunado Deus com seu clamor insistente pela chuva, ou foi a amargura impregnada no pedido que desagradou o Todo-Poderoso, ou simplesmente esse pobre coitado não sabe sequer rezar.

A canção foi gravada por muitos, de Gilberto Gil a Fagner, mas peço licença para deixar-me levar pelo óbvio e finalizar com a versão de Luiz Gonzaga. Por sol ou chuva, seu cantar me guia sempre.


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