Chico, política e o tempo

Falar sobre política pode ser um bocado traiçoeiro. Basta olhar para o lado e o democrático desemboca no autocrático. Bandeiras se transfiguram. Aspirações viram expiações. Tudo isso num piscar de olhos – pelo menos numa perspectiva histórica. E essa inconstância do jogo político acaba ficando registrada na música popular brasileira. É o que se vê em pelo menos 4 canções do Chico.

Tanto Mar

Como sabemos, “Tanto Mar” é um tributo à Revolução dos Cravos, que em 1974 pôs fim ao regime fascista que subjugou Portugal por quase meio século. Escrita em 1975, com os ecos do levante ainda à flor da pele, a canção tinha originariamente versos no tempo presente:

Sei que estás em festa, pá

Fico contente

E enquanto estou ausente

Guarda um cravo para mim


Eu queria estar na festa, pá

Com a tua gente

E colher pessoalmente

Uma flor do teu jardim


Sei que há léguas a nos separar

Tanto mar, tanto mar

Sei também quanto é preciso, pá

Navegar, navegar


Lá faz primavera, pá

Cá estou doente

Manda urgentemente

Algum cheirinho de alecrim

A letra não passou pela censura — no disco ao vivo “Chico Buarque & Maria Bethânia” (1975) a canção foi gravada na versão instrumental. A liberação definitiva só viria em 1978. Naquela altura, já frustrado com os rumos tomados pela Revolução – que se distanciara das classes populares, Chico se sentiu obrigado a lançá-la com outra letra, em que o presente deu lugar ao passado e a euforia causada pelo jardim português foi substituída pela esperança numa semente esquecida:

Foi bonita a festa, pá

Fiquei contente

E inda guardo, renitente

Um velho cravo para mim

Já murcharam tua festa, pá

Mas certamente

Esqueceram uma semente

Nalgum canto do jardim

Sei que há léguas a nos separar

Tanto mar, tanto mar

Sei também quanto é preciso, pá

Navegar, navegar

Canta a primavera, pá

Cá estou carente

Manda novamente

Algum cheirinho de alecrim

Neste vídeo, o Chico fala sobre a censura, a Revolução dos Cravos e as mudanças em “Tanto Mar”:

Morena de Angola

E por falar em Revolução dos Cravos, a partir dela os movimentos de libertação das colônicas lusitanas na África ganharam força. Em 1975, Angola declarou sua independência, logo eclipsada por uma guerra civil envolvendo os três principais partidos que disputavam o controle do país. Por ocasião do quinto aniversário da independência, o então presidente convidou um grupo de brasileiros para uma série de shows em Angola. A comitiva ficou conhecida como Projeto Kalunga e reuniu, além do próprio Chico, artistas como Dorival Caymmi, Clara Nunes, Martinho da Vila, Dona Ivone Lara e João Nogueira. Foi dessa experiência que nasceu “Morena de Angola”. Quem já cantarolou a música provavelmente se embananou no último verso e cantou:

Morena, bichinha danada, minha camarada do @#$%&

Na verdade, @#$%& é MPLA, sigla do Movimento Popular de Libertação de Angola, uma das forças políticas que lutaram pelo controle do país no pós-independência. O partido saiu vitorioso da disputa e mantém-se até hoje no poder. Se nos idos anos 80 o eu-lírico do Chico se posicionou francamente simpatizante ao partido, visto que trata a Morena como “minha camarada do MPLA”, passadas algumas décadas o compositor se colocou do outro lado.

Em 2015, um grupo de ativistas angolanos foi preso sob a acusação de planejar um Golpe de Estado e um atentado contra o presidente José Eduardo Santos, do MPLA. O grupo foi detido enquanto debatia o livro “Da ditadura à democracia”, considerado “altamente subversivo” pelas autoridades angolanas. Diversos organismos internacionais de defesa dos direitos humanos criticaram a arbitrariedade das prisões. Artistas se mobilizaram. Uma petição em defesa dos ativistas colheu mais de 15 mil assinaturas. O Chico fez questão de assinar.

Aqui embaixo o clipe de “Morena de Angola” com a maravilhosa Clara Nunes:

Pelas Tabelas

Outra peça que o tempo pregou foi em “Pelas Tabelas”, de 1984. Umas das canções mais analisadas do repertório do Chico, ela fala de um sujeito apaixonado à procura de uma mulher no meio das manifestações pelas Diretas Já, que lutavam pela aprovação da emenda constitucional que restabeleceria eleições diretas para a Presidência da República.

Hoje, se algum desavisado pega para ouvir a música pode muito bem achar que se trata de uma manifestação panelo-coxa-amarelista. Vejam só que ironia do destino:

Ando com minha cabeça já pelas tabelas

Claro que ninguém se toca com minha aflição

Quando vi todo mundo na rua de blusa amarela

Eu achei que era ela puxando um cordão

Oito horas e danço de blusa amarela

Minha cabeça talvez faça as pazes assim

Quando ouvi a cidade de noite batendo as panelas

Eu pensei que era ela voltando pra

Minha cabeça de noite batendo panelas

Provavelmente não deixa a cidade dormir

Mas sabemos muito bem de que lado o Chico está:

Linha de Montagem

E finalmente chegamos a “Linha de Montagem”, de 1980, uma saudação ao movimento operário do ABC paulista, cujas mobilizações contribuíram para a luta pela redemocratização do Brasil. Para quem não conhece a música, é essa aqui:

A letra toda é construída tendo como referência o ritmo repetitivo de uma linha de montagem e a estrofe final diz assim:

Sambe sambe São Bernardo

Sanca São Caetano

Santa Santo André

Dia-a-dia Diadema

Quando for, me chame

Pra tomar um mé

Como se vê, os dois últimos versos são premonitórios. De fato o movimento chegou lá, com o Lula, em 2003. O convite para uma visita também aconteceu, mas o Chico, avesso a cerimônias, declinou. Ela só se concretizaria muitos anos depois numa circunstância completamente oposta àquela imaginada em 80. Em agosto do ano passado, ele corajosamente esteve em Brasília para acompanhar a defesa da presidenta Dilma no processo de impeachment. Na ocasião, declarou: “vim em solidariedade e para conhecer o Alvorada, que nunca mais vou conhecer”. Tomara que dessa vez o tempo também contrarie o Chico, mas agora de uma maneira positiva. E que ele volte lá sim. Para tomar um mé.


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