“Mas é Carnaval”

Uma das minhas mais remotas lembranças musicais é “Noite dos Mascarados”, na versão cantada pela Elis e pelo Chico. Era a época da vitrola. Em que se carregavam discos embaixo do braço. Em que se segurava um LP como se fosse o volante de um carro. Em que quase ninguém tinha CD. Tipo hoje.

O que mais me fascinava na música era sua estrutura de diálogo – uma conversa entre dois foliões que se cruzam num baile de carnaval. Eu costumava cantar junto com o Chico só para receber a resposta da Elis. Demorei um bocado para decorar a parte em que ela emenda dois versos:

“Não tenho um tostão
Fui porta-estandarte, não sei mais dançar”

Gostava de imaginar o encontro do pobre que não tem um tostão com o rico que nada em dinheiro. Como se o carnaval estivesse acima das diferenças sociais. Ainda penso um pouco assim (ou apenas quero pensar).

Algumas coisas me intrigavam na letra. Como uma porta-estandarte desaprende a dançar? Sobretudo se considerarmos que ela ainda é tão menina… E o Pierrô? Por que se gaba tanto de ter nascido para sambar se logo em seguida diz que seu tempo já passou?

O fato é que alguns carnavais se passaram desde essas primeiras lembranças. Primeiro os das colônias de férias junto com a família. Num deles, uma menina percebeu que eu estava caidinho por ela e me pediu para cuidar do seu irmão mais novo enquanto ia logo ali. Foi pular carnaval. Voltou horas depois. Minha primeira fantasia foi de bobo da corte.

Anos mais tarde vieram os inesquecíveis carnavais do Clube de Tênis de Catanduva. A cidade se transformava. Havia uma estratégia de guerra para conseguir entrar no salão com os tubos de lança-perfume. Que farra.

Depois teve Carnalfenas (o mais perto que eu cheguei de um abadá), teve folia nas ruas de pedra de São Luiz do Paraitinga e teve também carnaval em frente à TV, maldizendo a brincadeira alheia por puro despeito. Os últimos foram em São Paulo, nos blocos que trouxeram para a cidade uma festa bonita de se ver.

Certa vez vi um vídeo em que o poeta Ferreira Gullar diz que a vida é uma invenção. Gosto de pensar na nossa capacidade de inventar a própria felicidade. Talvez por isso o carnaval seja minha festa favorita. Você pode ser um rei, uma sereia, um unicórnio, a Tieta, a grávida de Taubaté, o Tíbio (ou era o Perônio?) do Castelo Rá-Tim-Bum, o que você desejar. E hoje a letra de “Noite dos Mascarados” já não me intriga mais. São dois foliões que mentem um para o outro, fantasiam, inventam a própria felicidade. Porque é carnaval. E hoje eu quero morrer no seu bloco. O que você pedir, eu lhe dou. Seja você quem for. Seja o que Deus quiser. Bom carnaval!

Relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *