Visita ao Beco das Garrafas

No início de dezembro estive no Rio como se fosse a primeira vez. Digo isso porque nas ocasiões anteriores a passagem foi tão rápida que não considerava nem mesmo uma visita. Em algumas delas, foi literalmente aeroporto-sala-de-reunião-aeroporto, com possibilidades de vislumbre somente nos rápidos trajetos de táxi.

“A gente pode ir lá”. “É, agora não deve mais estar como era, mas temos que ir pela história.” A conversa tratava do Beco das Garrafas, local que contribuiu para o desenvolvimento do período mais prolífico da música brasileira não somente como espaço, mas como ambiente. Ali, alguns donos de bares não muito sensatos – do ponto de vista dos negócios – permitiam que músicos desconhecidos se encontrassem e explorassem cada nova descoberta harmônica, a maioria proveniente do jazz americano. Era comum artistas como Jorge Ben tocarem em mais de um dos bares na mesma noite. A perambulação pouco silenciosa de músicos e público entre botecos fazia os moradores lançarem garrafas lá para baixo em busca de tranquilidade, o que acabou por nomear o beco.

Para quem gosta de história, vale a pena visitar nem que seja para estar em um local de tamanha importância e onde estiveram Johnny Alf, Nara Leão, Dick Farney, João Donato, Simonal, Tom Jobim e vários outros.

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O Beco nos anos 60. Hoje, o Bottle’s incorporou a área do Baccará.

Hoje, o espaço na rua Duvivier entre os números 21 e 37 ainda abriga o Bottle Bar’s e o Little Club, que conservam a tradição com apresentações de jazz e bossa nova — o que por si só já é ato heróico. A programação é mantida muito organizadamente em conjunto entre os dois bares nesta página. Na esquina fica a livraria Bossa & Companhia, especializada em música brasileira — outro ato heróico.

A visita ao Beco, como era esperado, não deveria ter levado mais de 15 minutos. De dia, sem a agitação do Bottle’s, provavelmente seria uma olhadela e algumas fotografias. Não fosse entrar na Bossa & Companhia e topar com o vendedor Claudio. Animado e fã da nossa arte, é o tipo que faz falta em livrarias. Pode te indicar obras, tirar dúvidas, contar uma anedota de um ou outro famoso ou anônimo que estiveram por ali, como a fã que tatuou “Chico Buarque” no braço e levou tudo o que a loja tinha do compositor.

A loja tem materiais de outros gêneros, como rock, e até instrumentos e camisetas, mas o negócio ali é mesmo a nossa música. A bossa nova ocupa a maior parte, mas há espaço reservado para o forró e um canto especial de livros infantis. Sempre gostei dessa seção, e ter biografias de Luiz Gonzaga e Noel Rosa ilustradas para crianças é um tesouro que merece ser explorado com calma em uma próxima visita.

A dica dada pelo próprio Claudio é: leve o que você não encontra fácil em outras livrarias. É aquela honestidade que te ganha e faz você levar mesmo o que encontra fácil em outras livrarias.

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